ArtigosO psicopata mora ao lado

O psicopata mora ao lado

Por José Carlos de Sousa *

“O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Augusto dos Anjos (Versos Íntimos)

Em 1955, o prolífico e genial diretor de cinema Billy Wilder dirigiu o filme “O pecado mora ao lado”. Trata-se de uma comédia leve, bem ao gosto americano, que traz uma cena transformada em ícone da cinematografia mundial: aquela em que o vestido esvoaçante da personagem vivida por Marilyn Monroe, ao passar pelo respiradouro de um metrô, revela as bem torneadas pernas da atriz. Uma ousadia para a época.

No filme, a exuberante Marilyn Monroe torna-se amiga de seu vizinho, um escritor que fica pirado com a atração incontrolável que sente pela loira e com a perspectiva da infidelidade.

A moral da história, se deve haver alguma, é que estamos todos sujeitos a encontros incidentais e a situações inesperadas passíveis de nos levar à ansiedade e à angústia, se não conhecemos realmente a nós mesmos  ̶  e, portanto, não somos capazes de autocontrole  ̶  nem conhecemos de fato as pessoas que nos rodeiam  ̶  e, portanto, não somos capazes de prever ou controlar o que elas ou possam fazer, em nosso favor ou contra nós.

“O pecado mora ao lado” bem pode ser traduzido por “O perigo mora ao lado” ou, nos dias atuais, por “O psicopata mora ao lado”, já que muitas vezes temos ao nosso lado um personagem que se enquadra à perfeição nos títulos sugeridos.

Marilyn Monroe e Tom Ewell, em “O Pecado Mora ao Lado” (1955) / 20th Century Fox

De modo geral, as pessoas apresentam-se sempre “saudáveis”. Está tudo bem, enquanto não são perturbadas em seu mundo idílico, no qual suas ideias devem ser sempre consideradas e respeitadas; suas atitudes percebidas e apreciadas; seus comportamentos aplaudidos, seus temores dissipados e suas inseguranças desmanteladas.

Para algumas dessas pessoas, o não atendimentos a estas condições, no todo ou em parte, é o gatilho para que elas demonstrem o “lado negro da força”.  Nessa situação, nem o Mestre Yoda, com seu sabre de luz, conseguirá conjurar o perigo que representam para o bem-estar das relações em que estão e mesmo para o bem-estar daqueles que com elas convivam.

Por definição, o psicopata é um indivíduo que sofre de um distúrbio mental grave, caracterizado por comportamentos antissociais, incapacidade ser empático e de estabelecer vínculos afetivos adequados. Não sente arrependimento ou remorso por seu comportamento maldoso, o qual justifica de conformidade com um código amoral, fundamentado no egoísmo e na sua incapacidade de ver além do que ele imagina ser a sua verdade.

Obviamente, há inúmeras gradações possíveis nessa situação, mas em todas existe o risco de as pessoas que estão à volta do psicopata saírem feridas, de uma ou de outra forma.

Isso decorre do fato de o psicopata ser incapaz para o exercício do amor, em suas mais variadas facetas. Ele fantasia o que poderia ser amor, mas o que produz é “amor morto”, é “não amor”. E a vida não oferece espaços para a indiferença. Se não há amor, há sofrimento.

O que torna essa situação mais problemática é que psicopatas não trazem marcas ostensivas desde sempre. Podem não ser reconhecidos de pronto. Podem conviver por anos com uma pessoa, sem que sua paranoia escape das contenções frágeis que um verniz educacional (o familiar e o formal), a incipiente consideração que esboçou ter pelo outro (construída em momentos infantis ou juvenis em que ainda pressentia a importância da vida de relação) e o medo (igualmente infantil) construíram ao derredor do seu psiquismo alterado.

Problema ainda é o fato de o psicopata poder apresentar-se de forma sedutora, envolvendo consciências desarmadas em tramas de cuja maldade nem ele próprio se dá conta.

A situação representa uma doença, na mais forte expressão da palavra, que requer tratamento especializado, além de posicionamento firme dos que estejam sofrendo os efeitos dos comportamentos doentios. Não se posicionar é colocar-se em situação de desamparo, um desamparo que, pela repetição, entranha-se no ser, levando a quadros de depressão e a outros igualmente graves.

Posicionar-se sempre. Confrontar não. Muitas vezes é no silêncio eloquente que se responde à virulência das psicoses das pessoas ditas comuns, aquelas que se alternam entre o beijo e o escarro.

* José Carlos de Sousa é psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, Terapia EMDR, Terapia Cognitivo-comportamental, Gestalt-Terapia, Psicossomática, Hipnose Clínica, TFT, EFT e em Transtornos Alimentares. É colunista e membro do Conselho Editorial da TV PSI.

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