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Do barro à cerâmica: de uma experiência terapêutica a uma relação com o inconsciente

Este pequeno artigo baseia-se na experiência de observações, percepções e interpretações pessoais, a partir de sucessivas vivências em workshops com manejo de barro que venho desenvolvendo, com crianças, jovens e adultos, ao longo das últimas duas décadas.

A relação com o barro na prática da psicologia junguiana parece oferecer ao participante uma oportunidade de desfrutar de um confronto com o próprio inconsciente. Trata-se de propiciar um espaço onde a linguagem metafórica, simbólica é o meio que viabiliza sua interação consigo mesmo.

Ao se fazer uma releitura teórico-prática da psicologia analítica, observa-se, em alguma instância, a correlação entre o manuseio do barro e as três fases do processo simbólico de Jung:

1ª – Deixar vir:  No primeiro momento, há uma paralização; um impedimento; um bloqueio importante em busca do objetivo. Momento no qual acontece o encontro com o barro. Aí, o participante recebe e se depara com o material e, por aceitar este vazio, reconhece o conflito e entende as inúmeras formas que podem desde dali surgir (função transcendente do inconsciente). 

2ª – Considerar: Neste segundo momento, o participante reconhece e aceita possíveis variações emocionais, explorando seus diferentes aspectos. Momento em que o participante realmente interage com o barro, com o olhar, com o toque… usa seus sentidos para descobrir quais são as suas possibilidades.

3ª – Tomar Posição: Neste terceiro momento, o indivíduo exerce seu poder de decisão, diante de todas as possibilidades; escolhe um único caminho proposto pelo símbolo. Momento em que o participante escolhe a sua via de expressão e deixa no barro o resultado de sua busca, de tudo mais a que renunciou para liberar ali a sua criatividade. Exerce seu domínio. Seu limite é absolutamente seu; pois é incomparável, cabe somente a si viabilizar as possíveis formas de expressão que a porção de barro, a ele destinada, representa.           

Particularmente,  em um olhar retrospectivo da minha prática enquanto ceramista, vejo que, na maioria das vezes, procurava mais a relação com o barro do que o desenvolvimento de técnicas. A relação com o barro vinha mais como uma forma “dialética”, ou seja, como se ocorresse um diálogo entre mim e a plasticidade do barro.

Percebia os elementos da natureza que pareciam disputar lugar em busca de destaque. Ao final, acontecia sempre um processo de harmonização em que cada elemento tinha o seu apogeu, meio parecido com a alquimia e seus estágios… primeiro o barro tem uma expressão mais aquosa; depois de trabalhado vai mudando… processo em que o ar vai sequestrando a água paulatinamente e o barro vai ganhando mais a expressão da solidez da terra.

Mas, após o processo de modelagem, o ar passa ser o mestre que irá decidir os primeiros resultados. Neste processo de secagem, se não houver uma relação amigável entre o barro e o elemento ar, grandes prejuízos poderão ser causados à peça, como rachaduras ou fissuras, por exemplo. Isto pode até vir a inutilizar a peça, por ficar quebradiça, ou quebrada mesmo. No próximo passo, há de acontecer a primeira queima, independentemente de qual será a técnica da queima: forno a gás, forno elétrico ou ainda “queima de buraco” (ou raku) — técnica milenar em que se faz uma cavidade no chão, cobre-se a superfície com tijolos, coloca-se a lenha e depositam-se lá as peças, devidamente modeladas e preparadas.

Seja como for, há sempre a interação do elemento fogo, como majoritária. No entanto, se houver uma rachadura, ou ainda se houver muita água, se em algum ponto o ar não puder sair espontaneamente, em decorrência do aumento da temperatura que gere alguma pressão, poderá acontecer inclusive uma explosão, circunstância em que a peça é consumida pela guerra de equilíbrio entre os elementos. Finalmente, se tudo correr bem, após uma exposição adequada ao fogo, a peça poderá passar por novos processos até chegar a ser um produto acabado.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo acontece a cada um de nós, nas elaborações que fazemos no curso de nossos processos mentais, sejam eles conscientes ou não.

Sou grata ao Carl Gustav Jung, que despertou em mim a curiosidade de buscar mais significados do meu inconsciente através do diálogo com o barro.

Autor

Paula Portocarrero
Paula Portocarrero
Presidente da TV PSI Também presidente do Instituto Psiconsciência. Inscrita na Ordem do Psicólogos Portugueses (32734) e no Conselho Regional de Psicologia (4799/1) Brasil. Mestre em Psicologia Social, Neuropsicóloga – pesquisa os efeitos da meditação mindfulness na consciência. Certificada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional - IFP sob o n.º F697250/2020. Especializada em Psicologia Junguiana, Ontopsicologia e Psicologia Budista Tibetana, com mais 30 anos de experiência clínica, em 22 dos quais inclui a meditação na praxis terapêutica.

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