ArtigosPandemias de depressão e de Covid-19: como utilizar nossas habilidades internas?

Pandemias de depressão e de Covid-19: como utilizar nossas habilidades internas?

Mais para o final dos anos 90, começou a ser difundida a previsão de que este novo século seria marcado pela explosão de casos de depressão. Esta seria a doença mental prevalente no início do novo milênio. Pesquisadores e videntes lançaram suas apostas no futuro.

Em certo sentido, os oráculos mostraram-se certos. A expansão das indústrias farmacêuticas que desenvolvem medicamentos antidepressivos é uma prova disso. Isso não quer dizer que de uma hora para outra os casos de depressão explodiram do nada. O que observamos foi um movimento de maior conscientização quanto à importância de se monitorar e preservar a saúde mental. Essa mobilização tem contribuído para desmistificar a depressão e outros transtornos mentais, bem como os tratamentos psicológicos e psiquiátricos voltados para o cuidado desses pacientes. Não é mais coisa de maluco dizer que se sofre de depressão; ou de ansiedade. Ou de ambos. É quase como a pessoa confidenciar que padece de alguma disfunção metabólica, como diabetes ou pressão alta.

Esse holofote lançado sobre os transtornos mentais conferiu visibilidade e redefinição mais científica ao que anteriormente poderia ser qualificado, por pessoas próximas dos pacientes, como preguiça, rabugice, falta de vontade, adolescência e outras idiossincrasias. Hoje em dia, diagnósticos cada vez mais precisos permitem implementar tratamento precoce, com redução de eventuais prejuízos cerebrais, emocionais e sociais, resultantes de cronificação não tratada de sintomas.

Para auxiliar nesse diagnóstico, o desenvolvimento de tecnologias recentes, como por exemplo a estimulação transcraniana, abre novas perspectivas para casos resistentes aos resultados de medicação antidepressiva, o que ainda ocorre com muitos pacientes. Mas a necessidade estimula a pesquisa.

Além da estimulação transcraniana, outras formas aparentemente menos convencionais de tratamento de depressão têm gradativamente chegado ao público em sofrimento. É o que ocorre pelo emprego da microdosagem de certas substâncias psicoativas, como quetamina, psilocibina, canabinóides etc. A retomada de experimentos com substâncias psicoativas, que passou por uma onda, principalmente na década de 70, atualiza-se agora mediante critério rigoroso de dosagem e acompanhamento adequados. Esses tratamentos têm adentrado o mainstream psi, ampliando o cardápio de opções de ajuda, tanto para profissionais quanto para pacientes.

No entanto, avançamos duas décadas desde essa virada dupla de século e de milênio, quando a pandemia do Covid-19 nos atropelou. Chegou sem pedir licença. Novas preocupações entraram em nosso campo de consciência: contrair uma doença grave, que pode nos matar ou deixar sequelas de longo prazo; o risco de morte iminente de amigos, familiares; polêmicas politizadas a favor e contra a segurança das vacinas disponibilizadas para o público em tempo recorde (apesar de certos artigos esclarecerem que muito da tecnologia empregada já era pesquisada há alguns anos, por causa de outros precursores do Covid-19 – H1N1, SARS/ MERS).

Diante desse cataclisma de saúde pública, também previsto por vários infectologistas, a saúde mental passou por reviravoltas de curto prazo. Deparamo-nos com migração forçada e em massa dos atendimentos presenciais em consultórios de psicoterapia para sessões on-line. Apesar de saudosismos e certo refluir recente para psicoterapia presencial, a teleterapia parece que veio para ficar. Quando se oficializou a pandemia, no início de 2020, eu já fazia alguns atendimentos a distância, com pacientes morando em outros países. Para mim esse não foi um grande problema de transição. Já outros colegas reagiram com relutância inicial, mas os caminhos eram o virtual ou nada. Prevaleceu o virtual.

O que sim me surpreendeu, nessa mudança precipitada pela pandemia, foi a reação de pacientes mais complexos. Em vez de sofrerem com abandono e isolamento, muitos encontraram conforto no espaço virtual. Até mesmo alívio. Finalmente não precisavam de desculpas para ficar em casa. Tampouco precisavam de interagir com pessoas em contexto social. A pandemia serviu de pretexto para sentirem-se validados em sua vivência psíquica mais vulnerável, seu estado misantropo. Surpreendentemente, muitos pacientes deprimidos não pioraram com todo o distanciamento social imposto. Chegaram a achar a restrição social reconfortante. Mas como ajudar essas pessoas com a psicoterapia?

Recentemente li artigo revelador relatado por Jesse Grabmeier no Neuroscience News.com, no qual pesquisadores disseram aos participantes do estudo que elas poderiam empregar 2 métodos para combater um estado emocional deprimido (induzido por intervenção específica dos pesquisadores). Os participantes poderiam recorrer ao mindfulness ou a habilidades cognitivas. O mindfulness foi descrito como a consciência e aceitação dos próprios pensamentos. As habilidades cognitivas foram definidas como identificação e reavaliação de pensamentos negativos e positivos.

A descoberta surpreendente é que, independentemente do método empregado, os participantes que foram informados ao acaso serem o mindfulness ou a habilidade cognitiva o ponto forte deles, melhoraram mais rapidamente do que aqueles outros participantes que praticaram o método correspondente ao que os pesquisadores haviam dito ser um ponto fraco deles.  Independentemente do método, a confiança do participante de ter destreza foi mais determinante. Claro que há muito a se pesquisar (sempre), mas o trabalho terapêutico com as forças do paciente parece promover melhor resposta do que a ênfase em suas dificuldades e fragilidades.

Referência bibliográfica:

Murphy, S. T., Cheavens, J. S. & Strunk, D. R. (2022). Framing an intervention as focused on one`s strength: Does framing enhance therapeutic benefit? Journal of Clinical Psychology.

https://doi.org/10.1002/jclp.23302

Autor

André Monteiro
André Monteiro é psicólogo, professor e escritor.  Mestre e Doutor em Psicologia, com 35 anos de prática clínica e estágios pós-doutorais em Münsterlingen (Suíça), Bad Honnef e Berlim (Alemanha).

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