NotíciasA terapia por choques elétricos está mesmo de volta?

A terapia por choques elétricos está mesmo de volta?

Mais de 8 décadas após seu surgimento, a aplicação da electroconvulsivoterapia (ECT) tem voltado a aparecer com certa regularidade nos anos recentes. A polêmica eficácia da ECT e o estigma que a envolve mais uma vez voltam à discussão, em matéria veiculada na última quinta-feira, pelo portal português de notícias iol.

Segue a íntegra da publicação:

Eletrochoques podem ser a solução em casos graves de doenças mentais — sem estigma

Efeito da terapia de choques sobre o humor, a tristeza e a depressão é imediato, ao contrário do tempo de atuação dos fármacos.

A administração de choques elétricos continua a ser uma terapia envolta em controvérsia. Surgiu em 1938, numa altura em que os tratamentos para as doenças mentais eram escassos (ou praticamente inexistentes). O primeiro medicamento para a depressão apareceu apenas em 1958. Durante 20 anos apenas existia a electroconvulsivoterapia (mais conhecida como terapia de choques). Como tratava doentes com doenças mentais muito graves, “o uso desta técnica foi exagerado, foi usada (e abusada) para doenças que não estavam indicadas”, explica o médico psiquiatra Fernando Medeiros Paiva. 

Segundo o especialista, quando apareceram os psicofármacos a sociedade manifestou-se contra o recurso a esse tipo de tratamento e os movimentos antipsiquiatria quase o baniram completamente. Só se recorria à administração de choques elétricos em situações de desespero (em hospitais psiquiátricos) e, provavelmente, envoltas em algum secretismo. 

Mais recentemente, graças ao maior conhecimento sobre o funcionamento do cérebro, começou novamente a usar-se a terapia de choques, em situações bem definidas, exatamente para evitar que se aplique de forma indiscriminada. “É usada sempre como segunda ou terceira linha de tratamento. Nunca um electrochoque é provocado sem ter havido várias tentativas com outras terapias”, explica o médico psiquiatra.

As três patologias em que é mais usada são a depressão e doença bipolar graves e ainda a esquizofrenia. Segundo Medeiros Paiva, tem uma ação predominantemente antidepressiva e por isso é que é usada na perturbação mental caracterizada pela ansiedade e pela melancolia, quando esta resiste à medicação e a outras soluções terapêuticas.

Como funciona

Como é administrado o tratamento? “É feito com um disparo de uma voltagem bem controlada entre dois elétrodos que são colocados de cada um dos lados do crânio, nas zonas temporais. No entanto, alguns efeitos indesejados levaram ao desenvolvimento de outro método, que consiste apenas em um eletrochoque no lado não dominante do cérebro.”

Os efeitos secundários possíveis ocorrem ao nível da cognição e memória. Contudo, na maioria dos doentes, estes sintomas acabam por desaparecer ao fim de algum tempo. Ainda assim, há uma pequena percentagem em que os danos são permanentes. “São situações em que temos de ponderar muito bem a relação entre o risco e o benefício”, adverte o médico.

O mecanismo de ação dos eletrochoques no cérebro ainda não é totalmente conhecido, mas já se sabem muitas outras coisas sobre como funciona esta terapia. Até este momento, sempre que se faz um tratamento para as doenças mentais, este atua em todo o cérebro. No entanto, sabe-se que nestas patologias, só algumas regiões deste órgão estão alteradas — as restantes áreas não necessitariam de ser estimuladas. “Este facto é o nosso calcanhar de Aquiles: não temos um tratamento que atue apenas na parte fragilizada do cérebro”, reconhece o psiquiatra. 

A terapia de choques continua a ser alvo de preconceitos impossíveis de ignorar. E as doenças mentais apenas passaram a ser consideradas e reconhecidas pela opinião pública não especializada na última década. Até então, não eram levadas a sério pela população geral.

O estigma

“Quem viu “Voando sobre um ninho de cucos” pode ter uma noção errada do que é este tratamento atualmente. Em casos muito graves, esta terapia pode salvar vidas porque a eficácia é grande e o êxito imediato”, explica Medeiros Paiva. Nas terapêuticas farmacológicas antidepressivas, as mudanças de humor demoram a tornarem-se visíveis, mesmo em depressões não muito graves.

Nos casos em que os familiares dos pacientes viram o filme protagonizado por Jack Nicholson, é mais difícil convencê-los a autorizarem esta terapêutica. No entanto, é um risco que acabam por aceitar porque pode salvar a vida do doente. O método utilizado hoje em dia é muito diferente do retratado na película. “Antigamente os aparelhos para realizar esta terapia eram muito rudimentares, não existiam condições nenhumas. Atualmente os aparelhos são muito sofisticados”, descreve o psiquiatra. O paciente é anestesiado, o procedimento é realizado no bloco operatório, é injetado um inibidor muscular para que não ocorram convulsões e para que os choques elétricos afetem apenas o cérebro: “Não provocam dor absolutamente nenhuma”, assegura.

Ao contrário do que acontece com a medicação, “com a electroconvulsivoterapia, por vezes, o efeito é imediato. O doente fica logo com um humor normal e sente um alívio enorme do sofrimento que sentia horas antes do tratamento. É como se renascesse”, explica o médico. Nem sempre isto acontece — ressalva —, mas regra geral são necessários apenas seis tratamentos, duas a três vezes por semana, para que o doente sinta melhorias.

Segundo o médico, nas depressões recorrentes, poderá ser necessário repetir a terapia de choques um ou dois anos depois: “o que se faz nestes casos é medicar o doente com um antidepressivo após o tratamento. E, normalmente, a resposta ao fármaco é mais positiva depois da electroconvulsivoterapia”, explica.

FONTE: Filipa Novais, NIT / iol.pt, em 18/11/2021

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Redação TVPsi
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